domingo, 13 de dezembro de 2009

Contradições e pragmatismo

Eu já disse aqui que acredito que o socialismo seja o modo de produção ideal para substituir o capitalismo. Vocês também já sabem que sou filiado ao PT. Ora, poderá alguém perguntar, você é socialista e é filiado a um partido que faz um governo social-democrata que você defende com entusiasmo? Você é pra lá de contraditório, hein!?

Estive refletindo muito sobre esse aparente paradoxo em conversas, no twitter e em comentários em blogs, com o Hugo, a Flávia e o Alexandre. De fato, meu coração pulsa socialista. E também petista. E apesar de não ter superado o capitalismo (para Delfim Neto, Lula salvou o capitalismo), considero o governo Lula muito bom. Excelente até, em algumas áreas. Quando se compara com os anteriores os feitos de Lula ficam ainda mais extraordinários. Tenho uma admiração muito grande por ele, donde alguns podem me considerar lulista.

Em minha opinião, não se pode pretender implantar o socialismo, nem que seja o do “século XXI”, de cima para baixo. Poder, pode. O problema é mantê-lo depois sem um nível de autoritarismo muito acima do aceitável. E mesmo assim a chance de dar com os burros n’água é muito grande. Como diz o Hobsbawm: “(...) só o poder ilimitado não podia suplantar as vantagens e habilidades da autoridade: um senso público de legitimidade, um grau de apoio popular ativo, a capacidade de dividir e dominar e – sobretudo em tempos de crise - a disposição dos cidadãos a obedecer.(...) o século XX mostrou que se pode governar contra todas as pessoas por algum tempo, contra algumas pessoas por todo o tempo, mas não contra todas as pessoas todo o tempo”. Portanto, é preciso que as pessoas estejam convencidas de que há uma alternativa melhor que o capitalismo. Isso exige, no mínimo, que as pessoas sejam politizadas, que elas entendam que a política pode realmente interferir nas suas vidas, e que ela não é apenas disputas que alguns espertos travam para ver quem vai ter o direito de roubar o dinheiro público. A melhor estratégia que eu conheço para isso é a gramsciana de ocupar os espaços burgueses (e a internet, claro!) e criar uma nova hegemonia. Essa estratégia, no entanto, é sobremaneira dificultada pelo aburguesamento (Lênin já alertava para esse perigo no começo do século passado) e alienação progressiva da nossa classe trabalhadora.

O caminho, portanto, para se chegar a uma sociedade socialista “sustentável” pode ser longo, incerto e propenso a idas e vindas. Enquanto a revolução não chega, as pessoas precisam comer, ter acesso à saúde, ao lazer etc. Chegamos onde eu queria. A superação do capitalismo ainda não parece iminente, duas forças políticas disputam palmo a palmo poder no Brasil nas duas últimas décadas, o que fazer? Chorar e fazer biquinho? Apoiar uma “terceira via” fadada ao fracasso? Ou lutar para que o pólo de centro-esquerda vença o de direita e consolide as formidáveis conquistas dos anos Lula?

Fico com a última opção, claro. E é assim que lido com essa minha aparente contradição. Acho que a social-democracia não deve ser encarada como o inimigo a ser batido, como foi no passado (com razão, diga-se). Ela é aliada na medida em que é a única alternativa atualmente viável ao neoliberalismo. Além disso, vem mostrando resultados bastante razoáveis nos últimos 7 anos.

Resumindo: meu coração é socialista, petista e lulista. E não considero isso um paradoxo. É questão de estratégia e, claro, pragmatismo.

10 comentários:

Maurício Caleiro disse...

Parabéns, Bruno,

Pela coragem em assumir sua filiação partidária e em - ao contrário do que muitos fazem - sustentar uma posição de forma clara.

Posição que, hoje, no atual cenário, me parece a mais acertada, posto que uma opção mais à esquerda não teria a mínima chance na atual conjuntura e o governo Lula tem atingido resultados louváveis na melhoria das condições de vida dos pobres, na democratização do acesso à cidadania, ao consumo e à cultura, além de desenvolver uma política externa quase irretocável (a restrição vai por conta do Haiti).

Um abraço,
Maurício.

Flávia Cera disse...

Oi Bruno,
melhor falar aqui do que no twitter, né? Tem mais espaço :)
Então, lendo o seu post eu noto uma diferença fundamental no modo em que estamos pensando. Por exemplo, você diz "enquanto a revolução não chega" e fala na "superação do capitalismo". Do meu ponto de vista, a revolução nunca vai chegar. Não porque ela é impossível, mas porque acho que essa estratégia de esperar a revolução e com isso uma superação, apresenta uma concepção de tempo linear e cronológica. Quando comentei com você que era essa, exatamente, a hora em que o Lula poderia ter alterado tudo (quando falávamos da indicação) era isso que eu queria dizer. Era agarrar esse momento em que ele "pode tudo" para fazer diferente. Dar um furo na história. Seria nesse instante que a história poderia mudar de rumo (e quando eu digo isso, não me refiro a escolher outro candidato, não. Poderia ser a Dilma do mesmo jeito). Eu sou a favor de uma política subterrânea (escrevi sobre isso no meu blog) que vai totalmente na contramão de esperar a revolução ou de superar alguma situação, para mim, ela pode acontecer em qualquer lugar, em qualquer momento. Eu entendo a sua escolha, acho que o título do seu post explica isso menos com a contradição e mais com o pragmatismo. Porque depois de tudo isso que eu disse vc pode me rebater: mas tem gente passando fome. Tem mesmo. E eu acho o bolsa família uma coisa maravilhosa, a geração de empregos, etc. Mas isso é o que um governo tem que fazer. Não importa quem seja. O que penso que é importante mudar é a maneira de conceber a política: todo governo tem que garantir comida, saúde, educação. Se entendermos isso como princípio constitucional, e então, o cumprimento de uma responsabilidade, porque é isso que é, o mero (entretanto, fundamental) cumprimento de uma lei, aí sim, poderemos falar na desativação do capitalismo. Poderemos falar em uma mudança política. Tenho um amigo que disse que não se importa em ser chamado de golpista, desde que entendam que o que ele quer é um golpe universal - a idéia é bonita. Foi mais ou menos isso que tentei dizer. É sempre bom conversar com você :)Um beijo

Bruno disse...

Maurício,

Obrigado pelo comentário, meu camarada. Concordo com tudo o que você disse aí.

Um abraço,

Bruno

Bruno disse...

Flávia,

Que bom que você veio aqui! No twitter chega uma hora que a conver gira em falso.

A expressão "enquanto a revolução não chega" eu usei ironicamente. Tentava ironizar as pessoas, principalmente a turma do PSOL e afins, que não conseguem reconhecer os avanços do governo social-democrata do PT e jogam contra. Nem que para isso estejam contribuindo para o retorno da direita ao poder. São essas as pessoas que fazem biquinho e dizem: "Se não for do meu jeito eu não quero!" Ou seja, o governo não é tão à esquerda quanto gostaríamos, então vamos apostar todas as nossas fichas contra ele! Ora, mas mas assim vocês estão fazendo o trabalho sujo para o PSDB e DEM. Foda-se, pra gente é tudo ou nada!

Concordo quando você diz que a história pode ser furada. Como eu disse: poder , pode. Tudo pode. Só que não é conveniente quando as pessoas não estão convencidas de que esse furo é melhor para elas, quando as pessoas estão satisfeita com a mellhora que as suas vidas vem sofrendo nos últimos anos. Por isso eu digo que antes de mais nada tem que haver um trabalho - que pode ser demorado, penoso e até desestimulante - de convencimento. O pessoal tem que estar convencido de que "um outro mundo é possível"... Na minha concepção, há um tempo e um modo certo de furar a história. Acho que uma ação tão tranformadora não pode nem deve depender do voluntarismo de uma pessoa, por mais popular que ela seja.

Também acho sempre muito bom conversar com você :-) Talvez eu escreva outro post esmiuçando isso que eu tentei comentar aqui.

Um beijão

Hugo Albuquerque disse...

Bruno

Belo texto e bacana você ter dado seguimento à polêmica que o Alexandre começou bombasticamente e que eu dei continuidade com aquelas reflexões sobre o PT - que eu já pensava em publicar há dias e cujo momento de postagem caiu como uma luva.

Pois bem, vamos tocar a bola adiante: Concordo com a análise de Hobsbawm, no entanto, ela se aplica perfeitamente a movimentos socialistas que usam um meio de natureza vanguardista, mas esse não é o único caminho possível.

Primeiro, vamos pontuar o seguinte: Quando falo em vanguardismo me refiro à construção de um partido organizado hierarquicamente e pronto a conduzir a classe trabalhadora, fazendo às vezes de sujeito revolucionário e pronto a desenvolver uma elite tecno-burocrática capaz de ocupar o Estado Burguês para a consecução do Comunismo - essa última parte ninguém admite, mas está lá, trata-se das linhas gerais do pensamento bolshevik. Eu não concordo com essa via e nem a tradição socialista se limita a isso.

Há um outro caminho possível: A construção do processo revolucionário de uma forma orgânica, passando por uma intensa política de bases junto aos trabalhadores, produzindo espaços políticos mediante os quais a lógica do Estado Burguês seja desconstruída e que seus ocupantes possam participar ativa, dialogica e horizontalmente - sem dirigismos, sem demagogia.

Isso não é utopia, tem muito a ver com o que Rosa Luxemburgo fazia e com que o PT, nos seus primórdios fez - e por tal motivo é tão grande hoje. Ironia das ironias, não eram os setores materialistas do partido da estrela que faziam o grosso dessa política, mas sim a esquerda católica por meio das comunidades eclesiais de base. Esse é o único modo sustentável de se tocar um movimento socialista, os socialistas russos tiveram tudo para fazer isso, mas insistiram no primeiro modelo esgotando o potencial emancipador de uma das maiores revoluções da história da humanidade em menos de uma década.

(continua)

Hugo Albuquerque disse...

Voltemos ao Brasil varonil: Faço a mesma crítica que a Flávia fez, não é uma questão de "enquanto a revolução não chegue", o processo revolucionário só tem significado se vinculado à realidade social, mas o perde completamente caso seja reduzido a um mero ponto luminoso no horizonte a ser adorado. A Revolução não pode ser preciptada, mas devemos caminhar da melhor forma possível em direção a ela e não esperar um enquanto ela não chega - uma solução ex-machina.

Sei que vamos concordar na crítica aos movimentos socialistas extremistas, quase todos ligados a um idealismo pequeno-burguês que reduz as coisas ao "ou a Revolução ou nada", mas também não é uma questão de "enquanto a Revolução não vem, toquemos a vida" - concordo, o processo revolucionário não é uma mera obra de um segmento que acordou com vontade de realiza-lo, mas também não independe do necessário impulso para realiza-lo. Há um meio entre o esperar acontecer e o tudo ou nada que é a construção de um processo gradual.

Uma estratégia socialista adequada para o nosso país giraria em torno da ocupação do espaços burgueses vinculada a uma política de bases firme junto aos trabalhadores, uma subversão dessas insituições - tal como a social-democracia -, mas sem perder do contato uma política reoxigenadora junto aos movimentos sociais. Esses dois movimentos coordenados é que podem produzir uma mudança significativa - e isso, em grande parte é Gramsci, se diferindo do jogo social-democrata porque o esse último se limita a um jogo partido reformador -> instituições a serem reformadas, o que, aí sim, está condenado a um um esgotamento do potencial transformador do movimento como ocorre com o PT de hoje.

Por que apoiar o Governo do PT, então? Porque a sua política é - a curto e médio prazo boa para o país -, pois produz avanços sociais e, relativamente às opções é aquela que eu vejo como a única capaz não apenas de transformar beneficamente a nossa sociedade como também evitar um projeto puramente burguês como o PSDB - ainda que, paradoxalmente e mais adiante, por conta do método escolhido, isso possa ser o caminho para o seu próprio esgotamente enquanto agente transformador sem ter resolvido o antagonismo real que é o cerne da problemática, a contradição capital x trabalho.

abraços

Bruno disse...

Hugo, meu camarada,

Nós concordamos muito mais do que o seu comentário faz parecer! :-) Vamos aparar algumas arestas.

Hobsbawn se referia a qualquer processo revolucionário que ocorreu no século XX, socialista ou não. O que ele disse, em outras palavras, foi: "Sem apoio popular, nada feito". Não tem nada com que eu concorde mais.

Concordamos que a estratégia vanguardista, leninista, não é a melhor maneira de se chegar a uma sociedade socialista. Seria uma loucura imaginar que um partido de quadros revolucionários, extremamente disciplinados e hierarquicamente organizados conseguisse por si só fazer e manter uma revolução socialista num país tão complexo quanto o Brasil. Daí chegamos ao método gramisciano que consideramos o ideal e que você resumiu muito bem: "A construção do processo revolucionário de uma forma orgânica, passando por uma intensa política de bases junto aos trabalhadores, produzindo espaços políticos mediante os quais a lógica do Estado Burguês seja desconstruída e que seus ocupantes possam participar ativa, dialogica e horizontalmente - sem dirigismos, sem demagogia". É preciso um trabalho de convecimento, de politização que só é possível quando a população tem acesso a informações diferentes das veiculadas na mídia burguesa.
E é aí que entra Lula. A inclusão social (e digital!) é importantíssima nesse processo. E isso o governo social-democrata de Lula tem feito com sucesso. Por isso eu disse que a social-democracia deve ser encarada como uma aliada.

Ou seja, Lula e Gramsci, tudo a ver! ;-)

(continua)

Bruno disse...

Bom, a expressão "enquanto a revolução não chega" foi usada ironicamente, como eu expliquei na minha resposta à Flávia. Eu me referia ao grupo de pessoas que não quer brincar se não for do jeito delas e acaba jogando o jogo da direita. Não se trata de "enquanto a revolução não vem toquemos a vida". É "vamos usar os avanços a nosso favor sem correr risco de retroceder".

O socialismo pra mim não é apenas um ponto luminoso, utópico, inatingível. Se assim fosse, eu já tinha virado a casaca ;-) Mas, e nisso concordamos, a coisa tem que ser trabalhada e a internet é um front importante. Mãos à obra :-)

Um abraço, e obrigado pelo comentário

Hugo Albuquerque disse...

Bruno,

Desculpe pelo ponto sobre o "enquanto a revolução não chega" que você já havia esclarecido para a Flávia - bem na hora em que eu escrevia o meu comentário, mas só o li agora. Mas, resumindo, é por isso que eu apoio o governo atual, sem ser propriamente lulista - o que não impede de reconhecer suas qualidades como político - ou ser petista - talvez há dez anos atrás eu já estaria filiado, hoje, sou no máximo um filo-petista, ou um admirador do significado que o PT ainda tem, mas que se perde no ar. Como já disse reiteradas vezes, o Comunismo - ou seja lá o nome que as pessoas deem hoje para o estado de Emancipação Humana - não se constrói sobre escombros, por isso as melhores - ou menos piores - opções reais devem ser escolhidas, infelizmente, eu não poderia cair de cabeça no projeto petista atual, pois ele não se coaduna exatamente com o que eu penso, apenas produz efeitos que eu julgo como os mais razoáveis na direção da produção do que eu julgo como justo. No fim, mais concordamos do que discordamos mesmo.

abração

Bruno disse...

Hugo,

Tudo esclarecido, meu chapa. É sempre um prazer debater com você.

Um abraço