sábado, 31 de outubro de 2009

A sucessão de tempos presentes

"Em Freud, a incompatibilidade entre o processo de conscientização e a permanência do traço mnemônico nos leva a pensar que, nas situações de excessiva e contínua estimulação em que o sistema P-Cc (percepção-consciência) é permanentemente solicitado a trabalhar, a temporalidade psíquica é percebida como uma sucessão de momentos presentes. Só o que acontece aqui e agora existe e importa para a consciência, em sua tarefa restrita de aparar os choques advindos do mundo externo. Quando, depois de uma semana ou mês de intensa atividade, alguém reclama que o tempo tenha passado depressa demais, é disso que se trata: o sujeito se dá conta de que o tempo não foi vivido como um decorrer, um fluxo dotado de duração, mas como uma sucessão de instantes presentes que não deixaram no psiquismo marca alguma além da pequena e imediata modificação da consciência exigida pela velocidade dos estímulos recebidos".

Esse belo trecho foi retirado do livro “O tempo e o cão”, de Maria Rita Kehl. E serve como uma luva para explicar o meu sumiço. Tenho tido tantos compromissos, tantas responsabilidades, tantas demandas a atender que simplesmente não tem sobrado tempo para cuidar deste blog. Ora, manter um blog não é só escrever qualquer besteira só pra falar que escreveu. Se for para ser assim eu não quero. É preciso despender um mínimo de tempo para elaborar e escrever alguma coisa que valha a pena ler. Pois é, mas "a sucessão de tempos presentes” que foram minhas últimas semanas fez com que eu não conseguisse nem esse mínimo de tempo e que, consequentemente, este blog ficasse meio abandonado. Mas esse hiato teve um ponto muito positivo: percebi o quanto eu gosto de manter este blog, o quanto ele é importante para mim. É aqui que eu procuro distender o tempo, refletir, fugir um pouco da opressão do dia-a-dia. E isso me faz tão bem, é quase uma terapia...

4 comentários:

Camila disse...

QUE SUSTO - esse post tava com todo o jeito de ser de despedida... Ainda bem que houve uma reviravolta surpreendente do meio pro fim do parágrafo. Ufa. Não faz mais isso não. Beijos.

Bruno disse...

Camila,

Não vou me despedir tão fácil deste blog, porque, além daquilo que escrevi no post, tem o fato de por causa dele eu ter conhecido pessoas como você! Beiijão

Maurício Caleiro disse...

Sentimos sua falta. Também estou tendo dificuldades para conciliar trabalho, estudo e o blog.

Mas a citação da Kehl - que comprova, uma vez mais, ser um dos principais intelectuais brasileiros [ah, essa questão de gênero da língua portuguesa...] - demonstra que valeu a espera.

Um abraço,
Maurício.

Bruno disse...

Grande Maurício,

Arrumar tempo para fazer as coisas que gosto está cada dia mais difícil. Mas vou tentar não deixar mais o blog abandonado tanto tempo...

E a Maria Rita Kehl é fera. Quanto mais eu leio, mais fã eu fico.

Um grande abraço