sábado, 31 de outubro de 2009
A sucessão de tempos presentes
Esse belo trecho foi retirado do livro “O tempo e o cão”, de Maria Rita Kehl. E serve como uma luva para explicar o meu sumiço. Tenho tido tantos compromissos, tantas responsabilidades, tantas demandas a atender que simplesmente não tem sobrado tempo para cuidar deste blog. Ora, manter um blog não é só escrever qualquer besteira só pra falar que escreveu. Se for para ser assim eu não quero. É preciso despender um mínimo de tempo para elaborar e escrever alguma coisa que valha a pena ler. Pois é, mas "a sucessão de tempos presentes” que foram minhas últimas semanas fez com que eu não conseguisse nem esse mínimo de tempo e que, consequentemente, este blog ficasse meio abandonado. Mas esse hiato teve um ponto muito positivo: percebi o quanto eu gosto de manter este blog, o quanto ele é importante para mim. É aqui que eu procuro distender o tempo, refletir, fugir um pouco da opressão do dia-a-dia. E isso me faz tão bem, é quase uma terapia...
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
João Gilberto no "Ídolos"

João Gilberto entrou timidamente, muito sério, e se encaminhou ao centro do palco, onde tinha um banquinho, conforme solicitado à direção do programa. Ele se sentou, acomodou seu violão sobre a coxa direita e iniciou a interpretação da canção "Besame Mucho". Ao fim, foi julgado pelos jurados do programa:
Luiz Calainho: "Querido, vamos começar pelo figurino. Não gostei! Não acho que terno seja a roupa adequada para alguém que pretende ser o novo ídolo do Brasil se apresentar. E, convenhamos, você não está usando nenhum Amani, né? Esses óculos, não sei, não lhe caem bem. São muito pesados, te deixam com a expressão carregada... E acho que você não conseguiu passar emoção aqui pros jurados e pro público de casa... Você cantou só pra você, pra dentro... Ficou só olhando pro violão... Faltou soltar mais a franga! Não senti sua energia."
Paula Lima: "Sei lá, achei que você teve muita personalidade para escolher essa música! Bacana, um artista tem que ter personalidade. Mas faltou uma pimentinha aí... Talvez você estivesse nervoso, porque você, hum, desafinou um pouco. Algumas vezes a nota que você cantava não correspondia à nota que você tocava no violão, sabe? Sua voz ora se adiantava, ora se atrasava em relação à batida do seu instrumento. Você precisa trabalhar isso melhor. Se liga nisso, João! Faltou também mais comunicação com o público. Tem que se entregar, João! Soltar a voz! O público quer ouvir a sua voz!"
Marco Camargo: "De artista você não tem nada. Não consigo imaginar um cantor consagrado chamado João Gilberto e usando esses óculos que parecem com os que meu avô usava! Além disso, você escolheu muito mal a sua canção. Ela é muito morna, meio brega e, João, você não conseguiu mostrar a potência vocal que essa música permite. Ou seja, ela não combina com você, não bate, entende? Você fez tudo errado: escolheu mal a música, ficou estático, olhando pro violão o tempo todo, desafinou, não dançou...Parece que você se esconde atrás do seu instrumento e fica lá, cochichando. Desse jeito você não vai longe. Definitivamente você não serve para ser o novo ídolo do Brasil!"
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
O IPEA, o antropólogo e o capitalismo de compadres
É aquela velha história: o problema do pobre é que seu amigo também é pobre.
Esse estudo do IPEA confirma com números o que Roberto DaMatta teorizou me “Carnavais, Malandros e Heróis”: “No Brasil, o ato de individualizar-se pode ser equivalente a uma renúncia do mundo, mas (...) o indivíduo é também aquela entidade social que pertence ao mundo anônimo das massas. (...) Trata-se (...) de recusar um poderoso sistema de relações pessoais. E isso, no caso brasileiro, conduz à rejeição da família, do compadrio, da amizade e do parentesco, deixando quem assim procede na situação de certos migrantes nossos conhecidos: inteiramente submetidos às leis impessoais da exploração do trabalho e ainda aos decretos e regulamentos que governam as massas que não têm nenhuma relação. Por serem assim é que podem ser exploradas através de um conjunto de leis impessoais. Quando se trata de rejeitar o mundo, rejeita-se no Brasil o universo das relações pessoais, para cair de quatro no universo das leis impessoais, essas regras que esfolam e submetem todos os desprotegidos (ou seja, gente sem relações, gente indivisa)”. E continua: “No Brasil, (...) o sistema é dual: de um lado, existe o conjunto de relações pessoais estruturais, sem as quais ninguém pode existir como ser humano completo; de outro, há um sistema legal, moderno, individualista (ou melhor: fundado no indivíduo), modelado e inspirado na ideologia liberal e burguesa. É esse sistema de leis, feito por quem tem relações poderosas, que submete as massas. (...) A consequência disso é uma estrutura dual que tende a autoalimentar-se na dialética da lei draconiana e impessoal e do sistema de relações pessoais que permite, por causa disso mesmo, saltar a regra e o decreto. Daí a profunda verdade sociológica do ditado: “Aos inimigos, a lei; aos amigos, tudo!” Dir-se-ia (...) que: “aos bem relacionados, tudo; aos indivíduos (os que não tem relações), a lei””.
Meus amigos, vamos trocar tudo isso em miúdos: o estudo do IPEA confirma o que escreveu Damatta há mais de três décadas e prova por A + B que nosso capitalismo é realmente de compadres.
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Uma espécie decadente: a velha classe média
Bom, tudo explicadinho nos seus miiiiiínimos detalhes, vamos ao que interessa.
Neste fim de semana estive em Brasília e trouxe para vocês um exemplo de um espécime que abunda na asa sul do plano piloto e na região do Savassi e Belvedere, aqui em BH. Lendo uma revista semanal distribuída gratuitamente na Capital Federal, deparei-me com essa "carta ao editor":
"Lula se dispõe a fazer compra faraônica de armamento antibélico para defender nossas riquezas de invejosos inimigos hipotéticos.
Bilhões serão gastos e debitados nas contas de todos nós...
Bem mais modesta, só quero poder comprar uma caixinha de Tamiflu para defender meus netos de um inimigo certo e conhecido, e não posso.
Dinheiro para isto eu tenho... não consigo é o remédio, para tê-lo em casa e assim garantir que não vou chorar a perda irreparável de um ente querido (...)"
Veja que gracinha, ela quer só comprar um remedinho pra estocar em casa e usar na eventualidade de um netinho precisar... Dinheiro para isso ela tem, ora essa! Não importam os outros, "a gentinha e a gentalha", o que interessa é ELA se sentir segura.
Notem, esse discurso comprova que o Ministério da Saúde acertou ao comprar todo o estoque de Tamiflu que a Roche ofereceu ao Brasil e manter essa medicação disponível somente no serviço público de Saúde, onde TODOS têm acesso (ter urticária de enfrentar fila ao lado de "gentinha e gentalha" é outra história). Se o MS liberasse a venda de parte do estoque nas farmácias e a pandemia de gripe suína fosse tão catastrófica como alguns apregoavam, certamente faltaria medicação para a população mais pobre, já que, por causa do alarmismo causado pela imprensa, ocorreria uma "corrida às farmácias"e esse Tamiflu seria estocado pela turma do "dinheiro para isso eu tenho".
Este humilde blog gostaria, portanto, de parabenizar o ministro José Gomes Temporão e o Ministério da Saúde por ter tido coragem de enfrentar a imprensa oposicionista e a parte da população por ela doutrinada e, sem populismo, ter feito a coisa certa.
***
Como eu disse, estive em Brasília neste fim de semana. Estava acertando algumas coisas, pois planejava me mudar para lá no início do ano que vem. Como fiquei sabendo anteontem que fui aprovado no concorrido concurso do Hospital das Forças Armadas, esse resto de ano vou ficar na ponte aérea BH-BSB.
Pois bem, na sexta a noite fui jantar com um dos meus futuros patrões e sua esposa. Na mesa, além deles, estávamos eu, minha esposa, meu pai e minha mãe. Conversa vai, conversa vem, eles começaram a falar de política.
Então a esposa do meu futuro patrão começou a destilar aquela velha cantilena: "Eu fiquei sabendo, por fonte segura, que Lula vive bêbado"; "Você acha que eu votaria em quem não estudou? Assim eu desvalorizaria o meu currículo"; "Você viu aquela reportagem da Veja? Aquela sobre MST, que foi capa da revista? Pois é, um absurdo esses vagabundos..."; "O bolsa família só serviu para deixar os pobres preguiçosos."... E por aí foi. Eu fiquei calado, muito incomodado com aquilo, mas fingindo que não estava ouvindo. Então ela se virou para minha esposa e perguntou:
-Você vai votar na Dilma?
-Vou - respondeu a minha esposa.
-E você? - perguntou para mim.
- Também - respondi convicto.
Então ela percebeu que o terreno não lhe era inteiramente favorável, mas mesmo assim ela tentou uma cartada final:
- Você viu o que a Dilma fez com aquela moça da Receita? Você viu que absurdo? Você viu?
- Não, não vi. O que ela fez? - eu disse ironicamente.
- A a a... e e e.. ( gaguejando) Dilma pressionou ela... Você não viu isso?
- Você caiu nessa? Dilma e Lina não estavam na mesma cidade no dia que ela alega ter se encontrado com a ministra. Você acha que Dilma e Lula a desafiariam tão enfaticamente se não tivessem certeza?
- Não sabia desse negócio de que elas não estavam na mesma cidade... Mas tem muita corrupção por aí... Bom, é melhor pararmos de falar nisso , pois nós nunca entraremos num acordo - disse ela.
O assunto acabou aí. Não foi muito prudente eu ter contestado a mulher do meu futuro patrão, mas, vocês hão de convir, foi ela que puxou a conversa comigo.
***
Quando ouço discursos como aquele da "carta ao editor" e esse da leitora da Veja, eu fico extremamente desanimado. Fico realmente abatido, triste. Mas é só eu parar para pensar um pouco e logo me animo. Penso que essa velha classe média fala muito alto, faz barulho, mas é minoritária, não apita mais nada. Eles são o quê? 5? 3? 8% da população brasileira?
Está cada dia mais evidente, apesar de muitos ainda não terem notado, que os 8 anos de governo Lula mudaram a composição da sociedade brasileira. A expansão do crédito consignado, o ProUni, o aumento real do salário mínimo e o Bolsa Família proporcionaram a ascensão de uma nova classe média, a "nova elite morena", como diz Mangabeira Unger. Ela é mais numerosa do que a velha classe média, não tem os seus preconceitos e reconhece os avanços do Brasil durante os anos Lula. Ela não é ouvida pela mídia corporativa, mas sua voz é sussurrada nas esquinas e nos bares. Então, aquele negócio de que a decisão do voto sai lá do andar de cima e vai formando a opinião da turma da base da pirâmide já era. A nova classe média funciona como uma barragem e ela vai ser determinante para a inevitável vitória de Dilma. Ou alguém acha que a base da pirâmide engole o papo da elite e da velha classe média?
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
O ministro que está se saindo melhor que a encomenda
Veja aí o vídeo em que o Ministro do Meio-Ambiente Carlos Minc defende, pra lá de descontraidamente, durante um show da banda Tribo de Jah, uma bandeira pela qual este que vos escreve já se bateu muito: a descriminalização do usuário de maconha. Na verdade, eu sou a favor da legalização e normatização da sua comercialização, mas a descriminalização já seria um ótimo começo.
Ah, e antes que alguém venha me chamar de maconheiro, eu já me adianto: "fumei, mas não traguei" ;-)
terça-feira, 1 de setembro de 2009
Já era hora: minha opinião sobre a candidatura Marina Silva
Flávia,
Você tocou em tantos pontos interessantes aqui que eu não sei se vou conseguir comentar todos, e esse assunto Marina rende tanto...
Antes de qualquer coisa, gostaria de saber se, para você, essa mudança de paradigma que representaria a candidatura Marina seria devido à candidatura em si, ao seu discurso e tal, ou a um eventual governo verde?
Bom, Flávia, a mensagem principal que você me passou aqui é que você acha que algumas críticas à candidatura Marina são precipitadas e que seria necessário dar mais tempo ao tempo pra saber qualé a dela. So far...
Quando surgiu esse papo de que Marina sairia do PT rumo ao PV pra se candidatar à presidência, logo me vieram à cabeça dois nomes: Soninha Francine e Ralph Nader. A primeira pelo fato de ter abandonado seu partido de origem e ingressado em outro com posições políticas duvidosas, após ter recebido a promessa de que seria candidata a um cargo majoritário, o que não ocorreria no partido que ela deixou; o segundo por ter sido um candidato com discurso bonitinho, bacaninha e moderninho que acabou servindo à direita, como disse o Maurício aí acima. Têm elementos que a aproximam desses dois personagens - esses que apontei acima - como têm também outros que a diferenciam. O lance dela com o PV é muito diferente do de Soninha com o PPS, pois ela terá metade dos votos do diretório do partido (e além do mais, Marina não é Soninha, vamos combinar) . E, no Brasil, temos segundo turno, o que não acontece nos EUA. Então, mesmo que a candidatura de Marina sirva, à primeira vista, muito mais à direita do que à esquerda, o voto que ela roubaria de Dilma no primeiro turno, voltaria para a petista no segundo (e eu não sei se será de Dilma que ela roubará mais votos.Eu tenho dito e apostado que Heloísa Helena será quem mais perderá votos: parte do eleitorado desiludido, do indignado, do "cansado" e do evangélico). Isso está muito claro pra mim.
Vamos à prática. Se Marina for candidata sem uma aliança surpreendente (sei lá, vai que ela seduz o PMDB, já pensou? Ou se alie ao PSDB e vai ela na cabeça da chapa e Aécio de vice. Convenhamos que essas hipóteses são pra lá de inverossímeis) ela terá 2 minutos diários de tempo de TV, pouco dinheiro e pouca estrutura partidária – embora sua candidatura possa empolgar militantes -, o que significa que não irá para o segundo turno. Somando isso ao fato de que o segundo turno ocorreria de todo modo, entre Serra e um candidato governista, provavelmente Dilma, eu concluo que estamos gastando tempo, energia, tinta e bytes com um assunto que não terá tanta importância prática assim. Aliás, terá, indiretamente, se essa candidatura for o que faltava para estimular Ciro a concorrer à presidência. Aí sim terá importância, só não tenho certeza se isso será bom ou ruim para Lula e o PT.
Do ponto de vista prático, acho que a única importância que ela teria seria essa, mas, obviamente, do ponto de vista simbólico são outros quinhentos, como você e o Alexandre (naquele post que você linkou) bem disseram. O respeito ao meio ambiente e reflexões sobre os modos de produção e consumo (o desenvolvimento sustentável e tudo o mais) entrarão na agenda e deverão constar do programa de todos os candidatos. Mas não acredito que em curto prazo esses assuntos sejam enfrentados, pois acho que os anos Lula abriram portas que levam o Brasil para outra direção: expansão econômica baseada em crescimento do mercado interno, em decorrência do aumento real do salário mínimo, em programas de distribuição de renda e em crédito consignado (tudo isso com não desprezível impacto na diminuição das desigualdades sociais); aumento da importância do petróleo na nossa economia; crescimento das exportações (espero que o próximo governo dê preferência à agricultura familiar em detrimento do agronegócio)...
Bom, pra finalizar esse meu comentário tão grande quanto confuso, a minha torcida é para que essa candidatura Marina sirva para lançar ideias “verdes” que sejam utilizadas por Dilma em seu governo. Mas não acredito em grandes mudanças (de paradigma) enquanto o quadro político-partidário continuar o mesmo. Podemos ter melhoras, ajustes, mas não superação do nosso modo de produção e consumo. Acho que isto é o máximo que a esquerda pode esperar, pelo menos a curto prazo, de herança da candidatura de Marina Silva: alguns tons verdes em um governo vermelho desbotado. Mas isso não é motivo pra muita tristeza: a outra opção é muito pior.
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
Os fanzocas do Agripino e a dissolução da ideia de raças
Não que lá também não sejam possíveis discussões proveitosas. Embora mais superficiais e fragamentadas, são possíveis e frequentes, lógico que dependendo de quem são seus interlocutores. Neste fim de semana, por exemplo, eu participei de vários debates interessantes: sobre sexismo, religião, política, sobre o papel que Marina Silva desempenhará em 2010... Mas não vou falar aqui sobre nenhum desses, falarei sobre outro, que envolveu a @equipeagripino.
Por causa da oposição do DEM à aprovação do Estatuto da Igualdade Racial, os fanzocas do senador José Agripino Maia foram provocados via twitter e tiveram que sair em defesa do seu partido. Primeiro tuitaram isso: "Somos biologicamente iguais. O DEM acredita ser erro dividir país em raças (conceito ultrapassado). Defende cotas sociais." Claramente preocupados com a soberania nacional, afirmaram: "O conceito de raças é uma criação de colonizadores europeus. Geneticamente somos iguais: é o que diz a ciência atual." Então, várias pessoas contestaram: biologicamente não existe divisão racial, mas culturalmente sim. O racismo está aí, o que o DEM sugere? A @equipeagripino respondeu "brilhantemente" a esses questionamentos: "Preferimos tentar dissolver a ideia de raças", e acrescentou, dando prova irrefutável de que as cotas raciais não estão com nada: "Obama não precisou de contas raciais". E, aos que discordaram de suas opiniões, sugeriu a leitura de "Ironia, Contingência e Solidariedade", de Richard Rorty, autor que é radicalmente a favor das cotas raciais, como prontamente nos lembrou Idelber Avelar.
Se prevalecerem as ideias do DEM, resta-nos torcer para que daqui a trezentos anos a ideia de raça se dissolva e, assim, finalmente, logremos a democracia racial, a mais brasileira das utopias. E até lá, como ficam os negros? Sei lá, pergunta pro pessoal do DEM, a grande novidade do quadro partidário brasileiro e, evidentemente, um partido muito comprometido com a defesa dos direitos das minorias, como comprova esta declaração de José Bezerra Júnior, suplente de José Agripino Maia (DEM/RN), sobre o ministro do Meio Ambiente Carlos Minc: "Minha família tem 250 anos de tradição na pecuária desse país e hoje chega um maconheiro, travestido de ministro, vestido como gay para chamar os criadores de vigaristas e marginais."

