domingo, 21 de novembro de 2010

"Só quem é negro sabe o que sofre"

O jornal "Correio Brasiliense", em homenagem ao centenário da morte de Joaquim Nabuco, iniciou hoje uma séria de reportagens chamada "Negra Brasília", contando as histórias de "quem experimenta o preconceito, as dúvidas, as angústias, os medos, a raiva, as conquistas, a dor e a delícia de ter a identidade negra". As personagens de hoje são as gêmeas Karen (foto) e Karina, promissoras modelos.

Especialmente para os que alegam que não há racismo no Brasil e/ou menosprezam os seus efeitos na população negromestiça, reproduzirei aqui o depoimento de Karen (que tem apenas 15 anos!) para o jornal:

"Minha mãe é professora, ela mora em Brasília há mais de 20 anos. Não sei muito do meu pai, ele é um pai ausente, mas para a gente isso é uma coisa insignificante. Na minha infância, estudei na Tia Elza, uma escola particular aqui perto. Depois, estudei em duas escolas públicas no Guará. Continuamos em escolas públicas até hoje. A gente era muito odiada pelas meninas porque era muito metida, a gente se achava demais. Sempre me achei bonita, mas nunca aceitei a minha cor. Eu sempre falava "Ah, eu deveria ser branca". Porque na escola a gente era chamada de Chica da Silva, de um monte de apelidos.

Antes de ser modelo, só usávamos calça jeans até o pé, porque a gente morria de vergonha de nossas perninhas fininhas. Depois que a gente virou modelo, quase não usa mais calça, usa muito short, vestido. Eu me achava bonita, mas não gostava da cor da minha pele, do cabelo e da altura, me achava muito alta. Na escola, a gente era as mais altas. Hoje me acho a mulher mais bonita do mundo. Depois, se a gente não se achar, quem é que vai acha? Na escola, quando alguém chamava a gente de Chica da Silva, macaca, Pepê e Neném (dupla de cantoras gêmeas cariocas), a gente reagia, gritava, ia à diretoria. A gente não deixava barato, não levava desaforo pra casa, Revidava de todo jeito, só que era pior.

Minha mãe botou na minha cabeça que era pra eu ser médica, E falou o que cada filha tinha que ser. E a gente ficou com isso na cabeça, só que depois de uma certa idade, a gente fica ciente do que quer. E quero fazer direito, porque sei que a carreira de modelo não é para sempre. As cotas são necessárias, porque vamos ser bem sinceros... se não tiver... os produtores vivem nos falando: "Pra uma negra pegar um trabalho, ela precisa ser muito boa. Tem que estar perfeita, muito melhor que uma branca". Meus amigos todos falam que as cotas para a universidade são desnecessárias, porque é uma forma de racismo. Pode até ser pra eles, mas só quem é negro sabe o que sofre..."

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Essa turma a natureza marca

Recebi este e-mail de um tenente-coronel que trabalha comigo em um dos hospitais onde mourejo.

O e-mail já é uma piada em si, mas o mais engraçado é esse milico, que serviu com prazer à ditadura militar, dizer que vai "agir de forma democrática".

Veja o naipe:



Vamos todos procurar...não queremos ser injustos, né ?

POR FAVOR SE VC. TIVER OU SOUBER QUEM TENHA .....

ME MANDE O MATERIAL ABAIXO :

Tenho recebido e-mails de cunho político e a grande maioria é contra a Dilma .
Assim, para agir de forma democrática, justa e contribuir com o debate devemos conhecer
o que Dilma já deu e contribuiu para o Brasil.

Assim se você souber ou conhecer alguém que saiba......por favor me informe :

- Fotos dela lutando pela democracia

(Tem que existir! Por exemplo: uma foto da Dilma nas Diretas Já!);

- Uma só foto da Dilma em uma passeata pela Anistia Ampla,Geral e Irrestrita!;

( será que não tem ! )

- Uma foto da Dilma em algum evento pela Constituinte Livre e Soberana!;

- Uma foto da Dilma no Impeachment do Collor.

- Uma foto ou vídeo, que mostre ela indignada com o Mensalão ou com a história do dinheiro nas cuecas, nas malas, nas meias, etc.;

- Uma foto ou vídeo de algum trabalho social de que ela já
tenha participado:

( Será que Ela nunca participou de nada ! );

- Uma foto ou vídeo em que ela se mostre autentica e naturalmente simpática !

(deve haver!!!);

- Uma foto dela com o Marido / Ex Marido ou Pai da Filha

(Tem que existir ! )

Afinal de contas se ela for eleita queremos saber quem será o "Primeiro Damo" do Brasil até para saber..."COM QUEM ESTAMOS FALANDO ";

Não podemos ter uma presidenta sobre a qual não sabemos absolutamente
nada, a não ser pela boca do Presidente(QUE SÓ FALA MERDA) .

Chega de boatos, de disse-me-disse".

Queremos fotos! Notícias de jornal! Documentos históricos!

Tenho procurado tudo isto e até agora só encontrei o que o Presidente e os "Companheiros" falam !

Por Favor........Repassem e ajudem a acabar com o Apagão Biográfico da Dilma.






REPASSEM PARA QUANTAS PESSOAS CONSEGUIREM.
ASSIM IRÁ PARA TODO O PAIS E EXTERIOR


E SE POSSIVEL ME AJUDEM !

domingo, 22 de agosto de 2010

Enganos e auto-enganos


José Serra, a pouco mais de 40 dias das eleições, está pelo menos 17 pontos atrás de Dilma Rousseff. Ninguém , nem o mais otimista dos lulistas-petistas-comunistas, poderia imaginar esse quadro há 6 meses. Lembram de como Serra tentou se passar por “Serrinha paz e amor”, imaginando que bastaria ele não cometer erros para a presidência cair em seu colo? Lembram de quando o “Zé” e seus companheiros achavam que a eleição seria barbada pois ele concorreria contra um “poste”? E aquele tempo em que diziam que bastariam os primeiros debates para que Serra destruisse Dilma, como Covas fez com Afif naquele memorável debate em 89 ? Diziam também que Dilma chegaria ao período da propaganda eleitoral obrigatória com intenções de voto ao redor de 20%, pois esse seria o máximo de votos que Lula transferiria para a “guerrilheira”, vocês se recordam?


Os tucanos e seus eleitores diziam isso, e as suas vozes na mídia repercutiam (ou seria o contrário?) Para eles, a eleição seria entre uma paradoxal “autoritária pau-mandado” contra o experiente, preparado, racional José Serra. O povo, a despeito da popularidade de Lula, perceberia isso e seguiria a "massa cheirosa".


Eles não perceberam que estavam fazendo um exercício de auto-engano. Nem Dilma era um poste, nem Serra, um gênio, nem 20% era o teto da transferência de votos de que Lula era capaz. Mas era justamente isso que nos indicavam os colunistas de jornais, os comentaristas da GloboNews e os números DataFolha. Olhando em retrospecto é fácil identificar os erros, mas poucos os perceberam no momento em que eram cometidos. Até o “nosso” Kotscho caiu no conto da precisão cirúrgica da campanha de Serra e do desajuste da de Dilma, lembram?


Mas se no início muita gente se enganou, agora é nítido até para o mais desatento dos brasileiros que a campanha de Serra está naufragando e que os ratos já começam a abandonar o navio. O tucano ainda se debate, tenta se segurar em Lula (afinal são “dois homens com experiência”) ao mesmo tempo em que critica Dilma, mas o presidente diz que tudo o que ele fez foi a “quatro mãos” e que ela é a grande responsável pelo sucesso do seu governo. Essa estratégia tucana, não é preciso ser um gênio para perceber, é furada, está fadada ao fracasso.


José Serra está correndo um sério risco de sair desta eleição menor do que entrou. Perderá a hegemonia nacional no partido - Aécio, ao que tudo indica, será a grande referência da oposição que estará à direita do governo. E perderá também influência no PSDB paulista, que, provavelmente, terá em Geraldo Alckmin o seu maior líder. Veja que curioso: como Serra provavelmente será derrotado em 03 de outubro, resta a ele torcer para que Alckmin também perca em São Paulo; só assim “Zé” seguirá sendo convidado para os jantares da cúpula tucana no Fasano.

Anastasia decide mostrar Serra no programa eleitoral

(via Conversa Afiada)

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Sem garupa


Via Facebook do Ricardo Berzoini .

domingo, 15 de agosto de 2010

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Homens bons desmascaram "servo lulo-petista"

Vocês sabem, hoje é feriado em São Paulo em comemoração à "Revolução Constitucionalista". Não sei bem o que eles comemoram, já que esse movimento, que é reacionário, não revolucionário, pois servia aos interesses de uma oligarquia cafeeira retrógrada que havia sido apeada do poder por Getúlio Vargas, foi derrotado.

Sobre este feriado de 9 de julho, o Sakamoto escreveu um excelente post que eu assinaria embaixo. Mas não é exatamente sobre ele que eu quero falar aqui, é sobre os comentários que ele suscitou.

Tem gente que diz: "ah, fulano não tem apreço pela democracia, não ouve o outro lado, não tenta argumentar, debater..." Mas veja se tem alguma condição de debater com cabecinhas capazes de comentários como estes que reproduzirei a seguir:


Marcelo disse:
09/07/2010 às 8:40
Japa fedido, e seus parentes que matam milhares de baleias e golfinhos. Povo nojento. Viva Hiroshima e Nagazaki. Deveriam ter sido muitas outras
.


Este comentário reproduzido logo abaixo é o meu favorito. Representa bem o pensamento reacionário típico da pequeno-burguesia brasileira, que morre de medo de perder os seus privilégios. Quem nunca ouviu um discurso assim de um colega, um parente ou um amigo ?


myrna disse:
09/07/2010 às 8:43
Sabe, o que revolta em São Paulo ou devia revoltar a classe média brasileira ( B e C). É que você trabalha, estuda, não tem tempo para fazer passeatas com sindicalistas pelegos petistas, para ficar sambando o ano todo como certas regiões (sem preconceito mas está errado este comportamento), você entra na USP sem cotas, por capacidade, passa num concurso público sem INDICAÇÕES políticas e o filho do nosso presidente ganha em menos de 2 anos de governo LULA o que nossos filhos que estudaram no Colégio Bandeirantes e outros do mesmo gabarito nunca vão ganhar durante os 40 anos de trabalho.Será porque a gente lê os jornais e toma conhecimento de todos ss escândalos e r o u b alheira dos coronéis do Maranhão, Amapá, Alagoas, São Paulo do tempo ademarista, malufista e Pitta, do Pará de Jader Barbalho e outros que recebemos a pecha de arrogantes.

E não sabem por que recebem "a pecha de arrogantes"...

Eliane disse:
09/07/2010 às 8:36
“Alguma coisa acontece no meu coração…quando piso na Avenida Paulista”.
São Paulo é SÃO PAULO!!! não se trata de populismo, é HISTÓRIA.
E estamos conversados!
E Viva o 9 de Julho!!!


Felizmente, apareceu um atento comentarista para colocar o dedo na ferida. Claro, o Sakamoto não passa de um "um servo lulo petista regado a alergia a verdade". Agora tá explicado!

Guife disse:
09/07/2010 às 8:56
Lamentável a sua visão e falta de
respeito pelo passado, o qual
garantiu muitos benefícios do
presente. Seu texto e digno de
um servo lulo petista regado a
alergia a verdade e a vontade de
reescrever a história de acordo
as vontades presentes.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Olhar encantado de criança


“Isso tudo que eu estou dizendo para você aconteceu até os 7 anos de idade, tudo antes de pegar o pau-de-arara para vir para São Paulo.

É engraçado, quando se é pequeno, se vê uma coisa e se tem uma dimensão de grandeza diferente da que se tem quando se é adulto. Então, por exemplo, eu lembro das ruas, das casas... Depois que eu voltei lá, depois de 30 anos, eu fiquei decepcionado. Eu imaginava uma baita rua na frente de onde que a gente morava, eu imaginava uma baita árvore, tinha um pé de mulungu, que é uma árvore que dá uma sementinha vermelha. Eu tinha noção de uma árvore enorme, e quando eu voltei lá depois de 30 anos a árvore que eu vi não é grande, é uma árvore pequena. E era a mesma árvore da infância...

Tinha um lugar lá chamado "a bodega do Tozinho", que era um armazém. Eu tinha a impressão de que era uma coisa quase do tamanho do Carrefour, depois que eu voltei lá eu vi que era do tamanho de uma casinha popular aqui, ou de um barraco pequenininho. Eu tenho lembrança dessa bodega do Tozinho porque em 1950, eu tinha 5 anos de idade, mas meus irmãos mais velhos já escutaram pela primeira vez a Copa do Mundo pelo rádio. O único que tinha rádio lá era ele [o Tozinho]. Então o pessoal ia lá pra ouvir o rádio, ouvir programas musicais e coisas desse tipo."

Trecho de um dos depoimentos de Lula a Denise Paraná para o livro Lula, o filho do Brasil.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

O nó de Minas

Esse é o título do meu novo post no Amálgama. Leia lá e comente!

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Uma bandeira para a esquerda

Hoje o IPEA lançou um documento, intitulado “Pobreza, desigualdade e políticas públicas”, que conclui que: “Na década atual, a combinação entre a continuidade da estabilidade monetária, a maior expansão econômica e o reforço das políticas públicas, como a elevação real do salário mínimo, a ampliação do crédito popular, reformulação e alargamento dos programas de transferências de renda aos estratos de menor rendimento, entre outras, se mostrou decisiva para a generalizada melhora social no Brasil”. Note, todas essas causas de diminuição das desigualdades sociais foram ou instituídas ou aprofundas pelo governo Lula. Isso derruba a tese de que o governo do petista é uma mera continuação do governo FHC.

Este trecho do documento comprova que há um nítido corte entre o governo FHC e o governo Lula: “Entre 1995 e 2008, por exemplo, a queda média anual na taxa nacional de pobreza absoluta (até meio salário mínimo per capita) foi de -0,9%, enquanto na taxa nacional de pobreza extrema (até ¼ de salário mínimo per capita) foi de -0,8% a.a. Para o período mais recente (2003/08), a queda média anual na taxa nacional de pobreza absoluta (até meio salário mínimo per capita) foi de –3,1%, enquanto na taxa nacional de pobreza extrema (até ¼ de salário mínimo per capita) foi de -2,1% a.a.”

O documento então arremata: “Se projetados os melhores desempenhos brasileiros alcançados recentemente em termos de diminuição da pobreza e da desigualdade (período 2003-2008) para o ano de 2016, o resultado seria um quadro social muito positivo. O Brasil pode praticamente superar o problema de pobreza extrema, assim como alcançar uma taxa nacional de pobreza absoluta de apenas 4%, o que significa quase sua erradicação. Já o índice de Gini poderá ser de 0,488, um pouco abaixo do verificado em 1960 (0,499), ano da primeira pesquisa sobre desigualdade de renda no Brasil pelo IBGE.

“Ou seja, mantendo o mesmo ritmo de diminuição da pobreza e da desigualdade de renda observado nos último cinco anos, o Brasil poderia alcançar o ano de 2016 com indicadores sociais próximos aos dos países desenvolvidos. Enquanto a pobreza extrema poderia ser praticamente superada, a desigualdade da renda do trabalho tenderia a estar abaixo de 0,5 do índice de Gini”.






Pô, isso é uma coisa fantástica, que ninguém poderia esperar há 10 anos! É preciso ser um oligofrênico, um mal-intencionado ou um cego pela paixão política para não reconhecer esses avanços. Num país que sempre se caracterizou pelo “descompasso entre os indicadores econômicos e sociais”, Lula conseguiu aliar crescimento econômico ( especialmente no segundo mandato, graças aos programas sociais, ao aumento real do salário mínimo e aos investimentos do PAC) e diminuição acelerada da pobreza e da desigualdade de renda.

O documento, no entanto, indica algumas condições para que a diminuição da desigualdade social continue nesse ritmo. Uma especialmente me chamou a atenção: é necessário que o padrão tributário brasileiro passe de perversamente regressivo para progressivo. Veja o gráfico:




Isso derruba aquele velho argumento de que as classes média e alta são sacrificadas no Brasil. Elas, tadinhas, carregam o país nas costas. São sobretaxadas para que o governo federal dê o “bolsa-esmola” para os vagabundos que não querem trabalhar. Nada disso. O que fica claro é que quem mais se sacrifica para pagar impostos são justamente os que ganham menos. As famílias que tem rendimento de até 2 salários mínimos gastam quase 50% do que ganham com impostos!

A inversão desse padrão tributário perverso é uma bandeira que a esquerda deveria empunhar com entusiasmo.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

O blog em 2010

Pronto, 2010 está aí. Ano de Copa do Mundo, a primeira disputada na África, e de eleições. Assunto e emoção não faltaram. Espero que meu coração aguente.

Como muitos de vocês devem saber, eu estava cogitando iniciar um novo blog. Desisti. Fiquei com preguiça. Vou continuar por aqui. A única mudança que fiz foi o nome do blog: troquei o muito criativo Blog do Bruno por Miúdo Recruzado (peço para que os amigos que lincam este blog troquem o nome dele em seus respectivos blogrolls).

Não sei se já poderia adiantar isso, mas farei assim mesmo. O Amálgama está preparando uma cobertura para as eleições deste ano que promete ser uma das melhores da internet, e é com muita honra que farei parte desse time. Portanto, a minha cobertura das eleições será dividida em duas: os textos mais analíticos serão publicados no Amálgama e os mais pessoais, aqui. Obviamente, sempre que publicar algum post lá, ele será lincado cá.

No mais, um ótimo 2010 para todos, e vamos nessa!

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

A vanguarda marinista


Marina Silva se reuniu recentemente com um grupo de proletários revolucionários paulistas que, ao que tudo indica, pretende montar uma guerrilha verde na floresta amazônica (impedindo a passagem dos tratores lulistas) e, após a inevitável vitória nas eleições, ajudar a candidata do PV a mudar o modo de produção e consumo. Esse encontro foi documentado pela grande crítica do consumismo capitalista, a camarada bolchevique-verde Joyce Pascowitch. Leia aqui a reportagem.

Leia também o post do grande estrategista, o camarada Diogo Mainardi, para quem Marina fará uma revolução verde se topar ser vice do ambientalista José Serra. Segundo o revolucionário ítalo-brasileiro, já há articulações embrionárias nesse sentido.

O complexo de vira-latas do estadão

O editorial de anteontem do estadão é uma pérola. Intitulado “Lula não é mais ‘o cara’”, ele faz eco a um monte de ressalvas que os EUA fariam à política externa do governo brasileiro, que eu considero uma de suas áreas de maior sucesso.

Vejamos em que se baseia o jornalão para fazer essa avaliação tão negativa da política externa do governo Lula.

Segundo o estadão, “O apoio de Lula ao presidente iraniano foi desastroso perante a imprensa americana”. Aí eu pegunto: E daí? Será que o Barack Obama está preocupado com o que pensa a imprensa brasileira a respeito de sua administração? Será que a imprensa americana se interessa pelo que a imprensa brasileira pensa do seu presidente?

Outra coisa que, segundo o Estado de São Paulo, tem levado o Brasil a ficar em maus lençóis perante os EUA é a insistência do patropi em querer defender pontos de vistas diferentes dos “dos caras”: “Lula também foi criticado pela imprensa americana e por analistas qualificados por se meter na política centro-americana sem saber o bastante sobre a região. Sua intervenção em Honduras foi vista como um obstáculo à solução da crise - erro agravado com a insistência em não reconhecer a legitimidade das eleições.” ( Note a reverência com que o jornal brasileiro trata a imprensa americana. Será que o NY Times já ouviu falar do estadão?) Ora, primeiro, Lula não se meteu na história, meteram ele nela. Segundo, em que momento o suposto desconhecimento da região por parte de Lula afetou a reação do Brasil ao golpe de Estado? Qual foi a intervenção do Brasil em Honduras, a não ser abrir as portas para que o presidente constitucional de Honduras não fosse preso ou assassinado? Por que haveria o Brasil de reconhecer, logo assim de cara, uma eleição que foi conduzida por um governo golpista? Considero a atuação do Brasil no caso irretocável! E pouco me importa o que a imprensa americana acha disso.

Para Moisés Naim, editor da revista Foreign Policy, "o Brasil se comporta como um país em desenvolvimento imaturo e ressentido"” E eu considero os EUA um país imperialista e arrogante, e daí? Seria a mesma coisa do Mario Sabino, editor da VEJA, dizer que acha os EUA feios e bobos e o, sei lá, Chicago Tribune achar importantíssima essa declaração, a ponto de reproduzi-la em seu editorial.

Aí, o estadão fecha o editorial com chave do ouro: “Para ter influência global, comentou o Washington Post, o Brasil teria de abandonar o terceiro-mundismo de sua política externa. Não é provável que isso aconteça com o Itamaraty sob o domínio ideológico dos atuais formuladores da política externa.” Para começo de conversa, a política externa de Lula pode ser acusada de excesso de pragmatismo, nunca de excessivamente ideológica. Ora, é justamente essa estratégia de independência adotada pelo governo Lula e pelo Itamaraty que fez com que tantas portas se abrissem para o Brasil, inclusive ampliando o nosso leque de parceiros comerciais, o que, sem dúvida, foi muito importante no enfrentamento da crise. Ou será que o estadão queria que o Brasil fosse o Robin do Batman EUA? Quem sabe eles preferissem que ainda fôssemos um país-capacho, cujo chanceler tirasse os sapatos para qualquer funcionário da alfândega americana que o olhasse com cara feia...

Se seguíssemos as opiniões da grande imprensa brasileira, estariamos ainda longe de vencer nosso complexo de vira-latas.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Contradições e pragmatismo

Eu já disse aqui que acredito que o socialismo seja o modo de produção ideal para substituir o capitalismo. Vocês também já sabem que sou filiado ao PT. Ora, poderá alguém perguntar, você é socialista e é filiado a um partido que faz um governo social-democrata que você defende com entusiasmo? Você é pra lá de contraditório, hein!?

Estive refletindo muito sobre esse aparente paradoxo em conversas, no twitter e em comentários em blogs, com o Hugo, a Flávia e o Alexandre. De fato, meu coração pulsa socialista. E também petista. E apesar de não ter superado o capitalismo (para Delfim Neto, Lula salvou o capitalismo), considero o governo Lula muito bom. Excelente até, em algumas áreas. Quando se compara com os anteriores os feitos de Lula ficam ainda mais extraordinários. Tenho uma admiração muito grande por ele, donde alguns podem me considerar lulista.

Em minha opinião, não se pode pretender implantar o socialismo, nem que seja o do “século XXI”, de cima para baixo. Poder, pode. O problema é mantê-lo depois sem um nível de autoritarismo muito acima do aceitável. E mesmo assim a chance de dar com os burros n’água é muito grande. Como diz o Hobsbawm: “(...) só o poder ilimitado não podia suplantar as vantagens e habilidades da autoridade: um senso público de legitimidade, um grau de apoio popular ativo, a capacidade de dividir e dominar e – sobretudo em tempos de crise - a disposição dos cidadãos a obedecer.(...) o século XX mostrou que se pode governar contra todas as pessoas por algum tempo, contra algumas pessoas por todo o tempo, mas não contra todas as pessoas todo o tempo”. Portanto, é preciso que as pessoas estejam convencidas de que há uma alternativa melhor que o capitalismo. Isso exige, no mínimo, que as pessoas sejam politizadas, que elas entendam que a política pode realmente interferir nas suas vidas, e que ela não é apenas disputas que alguns espertos travam para ver quem vai ter o direito de roubar o dinheiro público. A melhor estratégia que eu conheço para isso é a gramsciana de ocupar os espaços burgueses (e a internet, claro!) e criar uma nova hegemonia. Essa estratégia, no entanto, é sobremaneira dificultada pelo aburguesamento (Lênin já alertava para esse perigo no começo do século passado) e alienação progressiva da nossa classe trabalhadora.

O caminho, portanto, para se chegar a uma sociedade socialista “sustentável” pode ser longo, incerto e propenso a idas e vindas. Enquanto a revolução não chega, as pessoas precisam comer, ter acesso à saúde, ao lazer etc. Chegamos onde eu queria. A superação do capitalismo ainda não parece iminente, duas forças políticas disputam palmo a palmo poder no Brasil nas duas últimas décadas, o que fazer? Chorar e fazer biquinho? Apoiar uma “terceira via” fadada ao fracasso? Ou lutar para que o pólo de centro-esquerda vença o de direita e consolide as formidáveis conquistas dos anos Lula?

Fico com a última opção, claro. E é assim que lido com essa minha aparente contradição. Acho que a social-democracia não deve ser encarada como o inimigo a ser batido, como foi no passado (com razão, diga-se). Ela é aliada na medida em que é a única alternativa atualmente viável ao neoliberalismo. Além disso, vem mostrando resultados bastante razoáveis nos últimos 7 anos.

Resumindo: meu coração é socialista, petista e lulista. E não considero isso um paradoxo. É questão de estratégia e, claro, pragmatismo.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Wordpress?

Estive pensando, amadurecendo uma ideia... Estou seriamente inclinado a trocar a hospedagem deste blog e acho que agora seria o momento ideal. Talvez mude para o wordpress, o que vocês acham?

Pretendo manter este blog aqui até o fim do ano e o primeiro post de 2010 já seria no blog novo. Manterei o mesmo nome do blog atual e deixarei este aqui, como registro do que escrevi até hoje.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Hexacampeão!

(Foto roubada daqui)

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Estreia no Amálgama

A convite do Daniel Lopes, fiz minha estreia no excelente coletivo Amálgama. Sobre a operação Caixa de Pandora e suas consequências, escrevi "Terremoto no planalto central". Leia lá!

domingo, 29 de novembro de 2009

Abaixo do fundo do poço

Quem esteve no planeta terra nos últimos dias sabe do artigo escrito por César Benjamin, e publicado pela Folha de S. Paulo, em que ele afirma que Lula lhe disse que tentara subjugar um rapaz durante o período em que foi mantido na prisão pela ditadura militar.

Pode-se esperar que um ressentido, com conhecido histórico de problemas de ordem psicológica escreva um artigo nojento desses. Mas o que leva um jornal a publicá-lo? Não só isso, a Folha parece que preparou o terreno para a “notícia” bombástica. Sem mais nem menos, dedicou litros de tinta para falar de “Lula, o filho do Brasil”, sem que nada de novo tenha ocorrido: a apresentação do filme no festival de Cinema de Brasília já tinha sido há mais de uma semana, não houve ainda estreia oficial nos cinemas...E foi com a desculpa de fazer uma crítica ao filme que Cesinha escreveu o texto infame. A Folha não é inocente, ela tem consciência da repercussão que uma “revelação” dessas teria, mas mesmo assim ela resolveu publicar o artigo contendo essa acusação gravíssima contra o presidente da República, sem ao menos procurar Paulo de Tarso, o publicitário que César Benjamin apontou como testemunha da conversa. Mais um exemplo típico de “jornalismo cafajeste” praticado pela Folha de S. Paulo nos últimos anos. Então cabe perguntar: a quem interessa o jogo jogado nesse nível? Hum, deixa eu pensar... Parece que tem um governador, pré-candidato a presidente, muito admirado pelos Frias, que não andou tendo boas notícias nos últimos dias... E é triste que, mais uma vez, segmentos da esquerda façam o trabalho sujo para a direita.

Resumindo: a Folha pegou um artigo nojento escrito por um perdedor desequilibrado, afirmando que, há 15 anos, o presidente da república confessou ter tentado praticar um crime em 1980. Pouco verossímil, para dizer o mínimo. Por que então Cesinha, tão zeloso, não contou essa história antes? Por que não a revelou, por exemplo, em 2006, quando formou a chapa moralista com Heloísa Helena? Por que, até a publicação do artigo, ninguém ficara sabendo dessa história tão cabeluda envolvendo uma pessoa que está em evidência no Brasil há mais de 30 anos?

Paulo de Tarso negou que tivesse havido tal conversa; o cineasta Sílvio Tendler, também presente à reunião, disse que Lula fizera uma brincadeira, “como outras 300”, que qualquer um entenderia como tal, menos o Cesinha, que a transformou num drama; José Maria, ex-candidato e presidente pelo PSTU e companheiro de cela de Lula, disse que César Benjamin “viajou na maionese”, que essa história simplesmente não aconteceu e não poderia ter acontecido; Romeu Tuma, comandante do DOPS à época, e o delegado Panichi, responsável por vigiar Lula na prisão, disseram o mesmo, assim como as outras pessoas que dividiram a cela com Lula; até o tal “menino do MEP” disse que isso é uma mar de lama e “quem escreveu essa história, que a comprove”... Ou seja, ninguém corroborou com a história do Cesinha. Isso dá margem para muita especulação: desequilíbrio mental do autor, dinheiro na jogada... Sei lá, só sei que isso não está cheirando bem e que o jogo jogado nesse nível interessa a uma pessoa, e vocês sabem quem.

PS: O interessante é que até agora ninguém da oposição bateu tambor para essa “notícia”. Por que será?